segunda-feira, 8 de novembro de 2010

do fim e do início, do dez e do onze

se cheguei aqui, não sei por onde comecei. o centro da cidade não me leva a lugar nenhum: passar por ele é mero acaso. é como que topando com joaninhas. pode ser sorte, pode ser azar. à margem, à margem, à margem? talvez a margem do la plata, e só. as orillas do cortázar não andaram comigo, tão pouco vieram pra casa. de lá, observei as meninas de 35 passando, passando, passando como o vento. não quis muita conversa, hesitei, olhei para os lados e, quando ninguém mais me fitava, virei para elas e gritei “me mandem um postal falso dessa cidade arrependida”. o depois ninguém quer saber. os olhares estão comigo e camuflados entre letras tortas de uma mente fugidia. e parece que só olhares: buenos aires não tem voz, não tem música, não tem ruído. e eu grito, eu grito, eu grito. uma cidade quase destruída por sua loucura. não é américa, não é milão: é orilla, orilla, orilla. buenos aires, mi terra querida, gardel te predestinou um futuro trágico, melancólico e doído. e troco tudo isso por um miles davis tranquilizante, mas cheio de sobressaltos. so what? minha paradinha foi, sim, estratégica. queria tanto falar. mas o jazz sem voz é sempre mais agradável. jazz, vinho e fumaça: a combinação ainda não está perfeita. procuro o doce e o amargo da cerveja. troco um, pelo outro e vou trocando de acordo com a música que toca. caminho pelas ruas transladadas da cidade não-proviciana que me oferece bugigangas, camelôs e flores, muitas flores. visto as quinquilharias e penduricalhos como se eu fosse um museu de tudo e carrego a cidade aconchegada em bolsos vazios e olhares cheios. procuro clarissa pelas ruas arborizadas e a vejo no calçadão da florida, claro, calma e feliz. buenos aires é isso, um pequeno buquê de flores barato: de vida curta sem ser pequena.


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renata gomes

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

poema sanfonado

(produto de um experimento surrealista, em papel que ia se dobrando e acabou escrito dos dois lados e em dois sentidos)

saltando como coelhos no campo

porque, na verdade, você fez com que as coisas se encaminhassem dessa forma

queria ouvir, na verdade, mas não tenho acesso
eu digo eu e dobro o rosto.

é só nosso!
três pequenas manchas voando na areia
perco as chaves, bebo, não vomito:
c'est maintenant decide.

um jogo de quebras no piso sujo e quadriculado
os portões cerrados e uma caveira que sorri

rien de rien

(cinzas por george frança, azuis por evandro bréal, amarelos por renata gomes, roxos por luiza ribas.)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

[b. h., 1 p. m.]

eu vi algumas vezes nos cruzamentos tortos e indefinidos o grande monumento curvo do homem que não morre e rabisca guardanapos. não vi a colônia. me esperavas com a franja cobrindo o perfil e a chave em mãos. em não muito tempo tornei nosso o corredor, não importando a arrumadeira detrás de seu carrinho que não podia subir escadas. unhas me correndo sobre cobertores proibidos no quarto de ninguém. chuveiro de incêndio, janelas que não se abrem ao vôo. suores de um centro recendendo a gatos pretos. o sorvete de goiaba em pá de madeira sorvido na apreciação do mosaico. entre dois três saluts cortaste a boca que eu não desisti de morder. dá a mão, me leva por ali. ontem te esperei e os panos e as dobras te engoliram. hoje era o empório. houve o dia em que para o lado acenei o dedo cego e te prensei as costelas na minha frente, com força, querendo não desabar quatro estados de volta. as sombras entre ladeiras apertadas pelo retardo da partida. cheguei ao destino porque retornei ao começo, porque a recherche da navegação era em nova seara velha. portador de flores no cabaret do tempo, te estendi as taças diante da estação. e me estendeste nos veludos, e me desceste aos deliciosos porões do inferno onde ao som da lira transviada eras eurídice tensionando a não ser mais igual esta penélope. descerrei a pele e eras mais do que aquilo que podia envolver nesses braços xadrezes nas curvas que nos despediram para não mais cinco anos.

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por george frança

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

as voltas e o toque
[que] ela me traz
o balanço, o giro
e o rebolar de
um todo pairando
em cima,
pontiaguda.

escolho a melodia
afino a velocidade
e tenho o que
quero.

escolho
é bossa,
é samba
é bethânia
e não é gal.

trago o marvin
lá de longe e
canto beatles
relembrando.

puxo de canto
um outro,
mas ele
não
me
tem.

tento.
tento.

é rara
a nossa história.



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renata gomes

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

França

sua face é um ritrato barroco
em que com outros pincéis
e outras tintas
transformo os semblantes
de diva pop
a rainha dos 80
a vilã decadente

não importa
a porta
o espelho das imagens
sempre se abre

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Ev. Brèal

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A FESTA

fomos que fomos, e quicamos. dançamos. éramos 3 e 4. mais vários. e chocados. e entregues. mergulhados em taças de champagne roubadas. flutuantes. eu pensava em ligar, queria aqui. não deixaram. okay. aceito. dancei. e tivemos as nossas núpcias. entre as jubas e jujubas de uma festa que roubamos os holofotes. tão lindos. tão esquecidos e lembrados entre si. nem precisamos de mais do que nossos abraços e danças reconfortantes, dessa poesia over. nem queríamos, bitches, se perder. e na noite. entre luzes faíscantes. copos. copos. copos. e felizes. e sorrisos. nos esquecíamos, amigos, um nos braços dos outros. uma musa marginal, que ria à americana... um modernista de alto escalão político, à alemã se impunha e se abria... e polidez e grandes e largos gestos que (re)comportam o mundo... um arquiteto à membro de conselho, que sabia onde encontrar os copos, sempre os copos, a fixação dos copos. e o nobre barroco que sabia das partes da corte, de onde fazer os cortes. todos em sedas e brilhos. nobílissimos. e tão mágicamente unidos e felizes, como um único sorriso que se rasga em festa e noite estrelada.
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Evandro Brèal
http://welstschemerz.blogspot.com/

terça-feira, 1 de setembro de 2009