sexta-feira, 7 de agosto de 2009

B.O

a Audrey Hepburn.

dedos rápidos batem à máquina
o mar se abre como moça
que traz a cachaça risonha
e senta e olha da esquina
não toca no meu copo
não bebe do meu corpo
que emerge todas as manhãs d'água fria
esfera decomposta: de amantes
lágrimas pérolas cristais quebrados
asas embebidas em gim tônica
o Salvador não me acolhe em seu azul profundo e redondo
como lábios de espanto que esperam um beijo
-temos um segredo -
as cordas do violão não comportam a tristeza
que senta-se à mesa e bebe do meu rosto
diluído ao largo da enseada
o sorriso atrevido de um anjo de Santa Tereza
deixa meu pulso preso em silêncio e temor
tenho poucos minutos
algum fôlego
nenhuma voz
nada para a viagem
rearranjo as notas e
tudo se transforma em memória
de um crime que não houve
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Ev. Brèal

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

eu abro a caixa e desmonto
não vivo, desvio
e sigo.

as pilhas de postais em
branco não me dizem
nada
mas não esqueço dos
não acontecidos
dos inéditos e
dispersos
jogados e
viajados.

espero por um
re-corte e
nada
uma colagem
e tenho
uma ilusão.

uma vista redonda
farta e cheia
confusa e escura.

a jabuticaba seca
não chora
nunca.

os inéditos são todos
falsos, uma brincadeira.

eu rio
do rio
de janeiro e
de junho.

o café e
dois torrões de
açúcar.
peço um disco de
samba e
ganho dois de
rock.

me atrai
me trai
diz-que-diz
que é verdade
mentira.

creio de não
querer.

pouco.



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renata gomes

quinta-feira, 30 de julho de 2009

ubi quo rio

I

le fleuve de m. clarice
é de lençóis em chamas
flutuantes e inexistentes
(o mar do leblon não é de lençóis)
em ipanema as mãos

II

o ônibus passava e a procissão corria
hirsuta
queria saber logo de vagar por todos os
pontos

uma trombada, um velho, cena de filme
até debaixo da terra tudo era aberto
ao redor da barca mar cerrado
(a ponte com ilusão de avalon)

de um lado, ainda, clarice,
doutro talvez rebelo
(espelhos espumam)

III

a barca não era sempre asséptica
nem o leito hospitalar
(entreverada a cama vermelha
e a zebra por travesseiro)

por vezes fumar vendo ao longe a catedral
a fumaça perdida no vento frio
dos aviões que sobrecruzavam

futuro perdido presente ahorístico
estou sem unhas

IV

depois que derrubei a parede
e contemplei ao fundo o vaso
e nunca fui ao fundo do copo
(o senhor me desceu rascante)

eu te vi de calças verdes e colete
(sem ás nos bolsos, puro valete)

para quem quis ser os bowies
um raio no rosto pode ser kiss
flashes (remind whose were them?)

luvas sem cortes
xadrez colado na pele
não para sempre
loura sem unhas feitas

V

quem tensionou a folha da palmeira
até desfibrilar para estender no chão

quem dormiu olhando a orla
e a estrela que sobe
a segurança providente manda que se vá para o lado
logo ali o passo das ondas é diferente
não pule na água

dormi(mos).

VI

eu precisei de algo com que cobrir
e da força nos goles

desisti de qualquer discussão para passar por debaixo dos arcos
sem coragem de me pendurar nos altos
e o garoto dançava nos paralelepípedos enquanto
deslizava o bonde

os moleques ca(o)ntavam e não deixavam a viagem seguir

no prédio velho de frente para os arcos
ele tangia o violão no apartamento azul sujo
terceiro andar, com sacada
- abraça mais forte, tenho medo que alguém me tome

VII

me cuida.

eu não passei pelas turistagens,
tinha algo como chamada de vampiro e
não gostava tanto de me expor ao sol
(tampouco da torrencialidade das lamas).

a academia de longe era sem arcadas, uma estátua
apenas queria vigiar pelo espírito
da letra sem sucesso

eu procurei a amiga narcisa
nos andares em que não abracei drummond

VIII

o mapa é praticamente igual: todo de triângulos
virados apenas para um lado.
metade da arte, metade dos astros abandonada.

desfilavam por cima da mesa todas elas em suas formas
fugidias entre fumaça (jurava que não haveria)
e as quis todas, não mais do que as mãos abaixo da mesa.

enlacei, e não foram as de lídia.

IX

no aviso de partida a corrida
do boletim de ocorrência
pernas doloridas de cada dança

roteiro histórico-colonial em olhares antigos
perdido por detrás dos óculos de onça
e do fumê perdido

no papel carbono da remington o registro da perda de identidade
agora em via civil você pode recobrar sua sede de ser outro
sacie num berro de perua ao passar a faixa

- toma este comprimido. há de te fazer menos mal
a conhecida companhia estranha
que estala de chegada junto com o tédio mortal
do passar de outra ponte.

- por george frança.

domingo, 5 de julho de 2009

juíz(o) de fora

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renata gomes

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Para um não-leitor de Derrida

as coisas se acumulam no vão, aqui e ali. três ou dois foucaults, dois barthes e um menino vindo da argélia. cartas e papéis que simulam gestos. documentos. um cachimbo largo cheio de... sons. quase um trombone de vazios. gramofone de gestos e mãos sem lucas. um disco de rita lee. dois. três. alguns. o táxi que voa aqui, resvala. não há o ouriço. não há força. a voz que fica é aquela que não é. com pontos e punctuns. sem latim. o gesto máximo é um abandono. abandono de juízo. com algum saudosismo: kant canta e grita. esmurra! meu bataille batalha a bastilha de um olho que eu escondo e não digo onde. sem rodapés imito milliet. vários papéis colados e alguns papelotes. esbaforo feito mallarmé. ai, alguém autorizado a falar. o belletrismo desses olhos cegos que se fecham. suspensas as palavras rumorejam. e tem tantas coisas. quilos e litros de matéria morta com algum jargão. meu kitsch ainda quer ser chic. não leio mais jornais e acaricio meu gato.

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Ev. Brèal

quarta-feira, 3 de junho de 2009

agomnico juhyzo

não há juízo que de fora se aplique. não há quarto de hotel (espaço de ninguém) que não se suspenda no ar quando aromático toco as tuas costas. recusas a bebida que te ofereço (bebes depois, sutil). o teatro furtivo que já foi cinema cheio não é nosso palco. antes nossas coxias. (entrevistas pelo furo na parede.) teu olho rasgado no parque não me pergunta as horas; antes me fotografa. nos retrata. poderíamos morar na luz da entrada da igreja. teu sotaque estrangeiro me assimila. teus dedos inocentes pressionam de algum jeito minhas ancas. como vou falar de pureza? arrisco, creio que posso, esse traço: tens olheiras de pureza. alto, esguio, nada de indiscreto que não sejam tight pants e os toques de mão entre cigarettes. me conduzes pelas galerias. nos quadros estranhos e sem nome aprendo a te seguir. nas coleções decadentes e perdidas, nos olhos vidrados do manequim de bustos deslocados, alguém espera de caixa ao ombro. nos óculos iguais tomo a tua mão (de novo, as mãos, ainda). me encaixas no colo no quarto de ninguém enquanto horizontais ouvimos os quaisquer no cruzamento abaixo. temos vista para o império, para a rainha, para a torre. temos vista nenhuma quando fechamos as quatro folhas ou oito janelas. eu ouço o trem sem poder ignorar de trás da torre. ouves os fones, mas é só essa música, prometes. vamos às alamedas, cúmplices, dândis, flanêurs. os caminhos de novo são teus. tateio os poros que escondes. quando corro - quisera te reter, te fazer contorcionista - avisas da mensagem escondida. a caixa se diz amnésica. o traçador das linhas me é irreversível. deep cuts. não temos medo de roubar, não só as louças: queria a quarta dimensão do teu instante-já. papéis franceses, paris nunca morna, menos instante, somos reis de instantâneos. quero o quarto extático, sustenido. quero que esta carta chegue. ser teu contemporâneo, por entre as telas poder de novo te tocar e a passo apertado afrontar o caos das portas do inferno abertas. café nevado, got milk? falas das cores, das repetições, dos conceitos. e só te prendo quando me esperas sentado ao lado das minhas malas. já cruzamos as taças, muito antes. e o silêncio-hiato a que chamei amor.

- por george frança, entre juiz de fora e são paulo, 30/5/09.

terça-feira, 2 de junho de 2009

de fora

lembrei-me de buk, do velho. estava estudando as margens, vivia as margens, mas estava à margem das margens. a maçã inteira no branco quadrado em contraste com as paredes sujas do quarto, de nada me fazia pertencer àquela geração. abusava do senhor, do gim, e da tônica. o vinho vagabundo nunca me interessou muito. quero não pertencer à margem, quero a margem, gosto de viajar nela, por ela, pra ela.
não levei o velho na mala. deixei-o em casa, numa fuga de esquecer-me na (e da) sarjeta. não deu. o chão por varrer, o chuveiro pingando, vazando, e a privada com cheiro de mijo velho me faziam recordar as estórias do amigo companheiro de passagens.
o café não batia à porta e me repugnava. frio e quente. não era los angeles. não era são paulo.
da sacada, larga e redonda, via as senhoras amigas – velhas e putas -, meus amigos loucos loucos, e carregava-os todos comigo comigo comigo comigo. no corredor, encontrei vários safados, todos sujos, bêbados e pernoitados. almodóvar pedia cores, mas não tinha. tinha buk, num tom pastel, pastéis, e cinza – muito cinza. o cinza lembrava o cheiro do trem, que eu não senti passar. lembrava barulho da fumaça, que eu não senti entrar. não era o rio, não era alto nem baixo – era médio.
o médio não faz parte da orilla. não quero ser médio. quero pertencer ao extremo. o marginal, aquele, me chama. não posso fugir, não quero fugir. não assumo o porte médio que tenho. assumo o pavor diante do marginal. e assumo o maior pavor de não pertencer a esta geração. quero um meio-fio pra me encostar. uma cerveja pra me debruçar. e amigos pra amar.



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renata gomes